quinta-feira, 9 de julho de 2009
As flores encomendadas
Um grande carro de luxo parou diante do pequeno escritório à entrada do
cemitério e o chofer, uniformizado, dirigiu-se ao vigia.
-- Você pode acompanhar-me, por favor? É que minha patroa está doente e não
pode andar, explicou. Quer ter a bondade de vir falar com ela? Uma senhora
de idade, cujos olhos fundos não podiam ocultar o profundo sofrimento,
esperava no carro.
-- Nestes últimos dois anos mandei-lhe cinco dólares por semana.
-- Para as flores, lembrou o vigia.
-- Justamente. Para que fossem colocadas na sepultura de meu filho.
-- Vim aqui hoje, disse um tanto consternada, porque os médicos me avisaram
que tenho pouco tempo de vida. Então quis vir até aqui para uma última
visita e para lhe agradecer.
O funcionário teve um momento de hesitação, mas depois falou com delicadeza:
-- Sabe, minha senhora, eu sempre lamentei que continuasse mandando o dinheiro
para as flores.
-- Como assim? Perguntou a senhora.
-- É que... A senhora sabe... As flores duram tão pouco tempo, e afinal,
aqui, ninguém as vê...
-- O senhor sabe o que está dizendo? Retrucou a senhora.
-- Sei, sim minha senhora. Pertenço a uma associação de serviço social,
cujos membros visitam os hospitais e os asilos. Lá, sim, é que as flores
fazem muita falta. Os internados podem vê-las e apreciar seu perfume.
A senhora deixou-se ficar em silêncio por alguns segundos. Depois, sem dizer
uma palavra, fez um sinal ao chofer para que partissem.
Apenas alguns meses depois, o vigia foi surpreendido por outra visita.
Duplamente surpreendido porque, desta vez, era a própria senhora que vinha
guiando o carro.
-- Agora eu mesma levo as flores aos doentes, explicou-lhe, com um sorriso
amável. O senhor tem razão. Os enfermos ficam radiantes e faz com que eu me
sinta feliz. Os médicos não sabem a razão da minha cura, mas eu sei: é que
eu reencontrei motivos para viver. Não esqueci meu filho, pelo contrário,
dou as flores em seu nome e isso me dá forças.
Esta senhora descobrira o que quase todos não ignoramos, mas muitas vezes
esquecemos. Auxiliando os outros, conseguirá auxiliar-se a si própria.
sexta-feira, 18 de maio de 2007
A flor
O local estava deserto quando sentei-me para ler embaixo dos longos ramos de um velho carvalho. Desiludido da vida, com boas razões para chorar, pois tinha a impressão que o mundo estava tentando me afundar. E se não fosse razão suficiente para arruinar o dia, um garoto ofegante chegou perto de mim, cansado de brincar. Ele parou na minha frente, cabeça pendente, e disse cheio de alegria:
- Veja o que encontrei!
Na sua mão uma flor. E que visão lamentável! Estava murcha com muitas pétalas caídas...
Querendo ver-me livre do garoto com sua flor, fingi pálido sorriso e virei-me.
Mas ao invés de recuar, ele sentou-se ao meu lado, levou a flor ao nariz e declarou com estranha surpresa:
- O cheiro é ótimo, e é bonita também... Por isso a peguei. Pegue-a, é sua!
A flor à minha frente estava morta ou morrendo. Nada de cores vibrantes como laranja, amarelo ou vermelho, mas eu sabia que tinha que pegá-la, ou ele jamais sairia de lá. Então estendi-me para pegá-la e respondi:
- Era o que eu precisava...
Mas, ao invés de colocá-la na minha mão, ele a segurou no ar sem qualquer razão.
Nessa hora notei, pela primeira vez, que o garoto era cego, e que não podia ver o que tinha nas mãos. Senti minha voz sumir. Lágrimas despontaram ao sol, enquanto lhe agradecia por escolher a melhor flor daquele jardim.
- De nada... - respondeu sorrindo.
E então voltou a brincar sem perceber o impacto que teve em meu dia.
Sentei-me e comecei a pensar como ele conseguiu enxergar um homem auto-piedoso sob um velho carvalho. Como ele sabia do meu sofrimento auto-indulgente? Talvez no seu coração ele tenha sido abençoado com a verdadeira visão.
Através dos olhos de uma criança cega, finalmente entendi que o problema não era o mundo, e sim EU! E por todos os momentos em que eu mesmo fui cego, agradeci por ver a beleza da vida e apreciar cada segundo que é só meu. Então levei aquela feia flor ao meu nariz e senti a fragrância de uma bela flor, e sorri enquanto via aquele garoto com outra flor em suas mãos prestes a mudar a vida de um insuspeito senhor de idade...
As melhores coisas da vida são vistas com o coração!
quinta-feira, 10 de maio de 2007
Viver como as flores
Era uma vez um jovem que caminhava ao lado do seu mestre. Ele perguntou:
- Mestre, como faço para não me aborrecer? Algumas pessoas falam demais, outras são ignorantes. Algumas são indiferentes, outras mentirosas... sofro com as que caluniam...
- Pois viva como as flores! - advertiu o mestre.
- Como é viver como as flores? - perguntou o discípulo.
- Repare nestas flores - continuou o mestre - apontando lírios que cresciam no jardim. Elas nascem no esterco, entretanto são puras e perfumadas. Extraem do adubo malcheiroso tudo que lhes é útil e saudável, mas não permitem que o azedume da terra manche o frescor de suas pétalas...
É justo angustiar-se com as próprias culpas, mas não é sábio permitir que os vícios dos outros nos importunem. Os defeitos deles são deles e não seus. Se não são seus, não há razão para aborrecimento. Exercite, pois, a virtude de rejeitar todo mal que vem de fora... Não se deixe contaminar por tudo aquilo que o rodeia... Assim, você estará vivendo como as flores!